Mas, o que ele é, em todos os momentos da sua vida, quando faz prosa ou poesia, ou quando é professor, o que sobressai é o seu sentir de HOMEM BOM. É em todos os instantes um HOMEM.

     Diremos mesmo que a sua humanidade reflecte-se, tanto na sua obra poética como no seu "DIÁRIO", onde ali diz da sua vida de professor e da sua vivência como homem que olha os seus semelhantes no desejo ingénuo de os conhecer, de conviver com eles.

O POETA

É sua a definição:


"O Poeta beija tudo graças a Deus. . .

E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade. . ."


       E o seu protesto contra a imposição arbitrária de um "status quo":


"Puseram-lhe na boca uma mordaça. . .


Mas o Poeta era Poeta

E tinha que falar.


Fez um esforço enorme,

puxou a voz como quem golfa sangue

e a mordaça soltou-se-lhe da boca.


Porém, não era já mordaça:


Agora,

era um poema a queimar

os ouvidos das turbas inimigas

que, na praça,

o tinham querido calar."


A Arrábida palpita nos seus poemas:


...

"O Poeta disse os seus versos

e o vento fez, aos esparsos

cabelos dos pinheirais,

soltar uns "chuis" que pediam,

às coisas que se moviam

que se não movessem mais.


. . .

E o búzio não falou mais

das ondas nem dos meus ais."


A sua curta vida viveu-a intensamente; no entanto a morte pairava. . .


"Que bom ter o relógio adiantado!. . .

. . .

Tic-tac... Tic-tac...

. . .

ele a julgar que é já o resto

e eu a saber que tenho sempre mais

três quartos de hora de vida."


O PROFESSOR

       O conhecimento dos seus rapazes não se limita às paredes da sala de aula. Ele acompanha-os nos seus problemas de adolescentes - os seus alunos, considerava-os como se seus filhos fossem.


"O que eu quero é que vivam felizes", dizia.

       E, assim, tinha um cuidado que lhe vinha de dentro, para não os molestar:
"Eu sou contra a tinta encarnada nos exercícios; notas, emendas ou o que é que tenha que escrever, costumo fazê-lo a lápis, se o exercício está a tinta; e a tinta se o exercício está a lápis. A tinta azul, claro está. Porque a vermelha lembra-me o sangue a escorrer de feridas - e pode dar-se o mesmo, se não em todos os alunos, ao menos em alguns.

E o risco? O risco num trabalho que foi feito, por vezes, com esforço, amor, convicção?


...

Um risco pode equivaler a uma reguada. E na alma, que é onde dói mais; eles não sabem protestar; talvez nem mesmo intimamente eles protestem; mas lá no fundo deles qualquer coisa se desequilibra: ou então acham isso natural - o que é muito pior. MUITO PIOR."


       No seu "DIÁRIO" refere a sua experiência como Professor na Escola Técnica e recorda alguns dos seus alunos:


"Quando cheguei a Setúbal quis acabar com o que fica bem chamado "o terror da chamada"; é esse terror que leva a criança a faltar à aula, a inventar uma desculpa, a tremer perante o professor.

...

Em Setúbal, de princípio perguntavam: "É para nota?" (E havia medo na voz.) "Não. É para aprender" Pois sim senhor, para aprender é que é: para eu aprender, para o aluno aprender; para estarmos mais perto um do outro: para partirmos a aula ao meio: pataca a mim, pataca a ti."


       E tece considerações sobre a Escola e o "perceber":


"Cada vez me apetece menos classificar os rapazes, dar-lhes notas, pelo que eles "sabiam". Eu não quero (ou dispenso) que eles metam coisas na cabeça; não é para isso que eu dou aulas. O saber - diz o povo - não ocupa lugar; pois muito bem: que eles saibam, mas que o saber não ocupe lugar, porque o que vale, o que importa (e para isso pode o saber contribuir e só contribuir) é que eles se desenvolvam, que eles cresçam, que eles saibam "resolver", que eles possam "perceber".


       E com graça conta alguns episódios passados nas aulas:


"Outra coisa em que eu tomei, a propósito de palavras, foi no eufemismo. Perceberam. O maroto do Artur, quando eu lembrei que a pessoa a quem morre um parente muito querido diz de preferência que ele faleceu, descobriu logo: "Ah! Por isso é que no jornal nunca vem morrimentos, vem sempre falecimentos"."

"Se eu não risse era um palerma" diz Sebastião da Gama. "Se eu o mandasse para a rua (há quem faça isso, por causa disto, sim senhor.') era uma dúzia de palermas' concluiu.

       No seu "DIÁRIO" passam como num filme as figuras dos seus rapazes (e algumas meninas):


O Artur, "um rapazinho vivo e sempre pronto a falar e a ter razão", o aplicado e "bom companheiro Ludovico" que lia com "pompa" e brilho de orador, o sensível Fosco, o Barradas, o Romão que era Poeta e o Augusto, o Fragata, o Albano, o Calvinho que mais tarde veio a ser seu enfermeiro, o Gabriel, "o Rogério, rapazinho adorável, aluno esplêndido", o "Chocolatadas que é da roda dos meus amigos", o Nicolau, o Manuel Botas, "o Souto que era um rapazinho irónico, inteligente, recalcitrante, porta-voz da única turma que refilou em Setúbal contra os meus métodos. . ."


       Nas sua relações com os pais dos alunos, Sebastião da Gama, actuava com muito cuidado. Eis como ele pensava:


"Desde Setúbal que penso cá para mim que falar com os pais só para lhes dizer, quando isso é verdade, que os filhos vão na ponta da unha. Ficam eles felizes e fico eu. Agora, quando a coisa está torta, o negócio trata-se entre o professor e o aluno. Assim é que o professor passa a ser olhado como "o queixinhas", o causador de uma bofetada, de uma reprimenda, quantas vezes violentíssima."
       Refere-se à sua estada na Escola Técnica de Setúbal falando com muita ternura das suas cinco meninas da Indústria.

       Da Escola de Estremoz destaca três meninas - a Luciana, a Guilhermina, a Laura

       . . .

"A Luciana é uma carinha de riso. Até as tranças riem. Ou sorriem não se sabe bem".

"A Validinho, "flor de melindre (querida menina) a Eulália. . .

       Da sua estadia em Estremoz, onde lecciona durante dois anos, dá a sua opinião sobre a cidade:


"Estremoz é boa terra. Ou então é defeito meu."
       Convém referir aqui as suas palavras quando dá a sua primeira aula em Lisboa, na Escola Veiga Beirão, onde fez a sua profissionalização; dirige-se aos alunos nestes termos:


"Não sou, junto de vós, mais que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras. Ensinar, não. Falar delas. Aqui e no pátio e na rua e no vapor e no combóio e no jardim e onde quer que nos encontremos."

       E não se coíbe de sinceramente dizer da sua satisfação do dever cumprido:


"QUE BELA LIÇÃO EU DEI"
       O "DIÁRIO" de Sebastião da Gama é um verdadeiro Manual do Educador. Há ali muito que aprender. É leitura obrigatória para quem quer ser um educador. É leitura para todos.

       Ensaia novas formas de ensinar, aliciantes formas de aprender.

       As suas experiências pedagógicas foram, no seu tempo, algo de inusitado que tiveram o efeito de uma pedrada no charco.

       Hoje muitos lhe seguirão o exemplo. . .

O HOMEM

       Era uma pessoa alegre; a doença, que desde muito novo o atacava, não lhe tirava a alegria de viver. Esse seu feitio levava-o a fazer amigos com muita facilidade. Era com os seus alunos, era com os pescadores e camponeses, com os quais se identificava no vocabulário e também na sua necessidade contemplativa de paisagens extensas a perderem-se no horizonte. . .

       A sua sensibilidade fá-lo quedar-se rendido perante um Pôr-do-Sol na Arrábida, uma gaivota que em curvas graciosas se aproxima da praia, ou se quebra comovido perante a oferta de um grande e "lindíssimo ramo de cravos" que o Artur lhe oferece dizendo terno:


"Para si e para a sua Joaninha. . ."

       Quando procura o aluno:

"Que é do Barradas? Por que diabo tem o Barradas faltado?"

       E procura-o, fala-lhe na taberna onde se faz encontrado e tenta compreender o motivo, tenta penetrar na intimidade do Barradas.

       E o Barradas aluno, volta à Escola.

       Com a simplicidade e autenticidade que lhe é peculiar faz o seu próprio retrato:


"Está provado que não nasci para falar com doutores.

. . . sou saloio por dentro; saloio não: cabreiro. E depois deu asas a isto o facto de eu me ter feito homem entre camponeses e pescadores e ter tido sempre o cuidado de falar com eles, para estar com todos à vontade. Ao par do que aí fica, acontece que venho de lavradores, jardineiros e comerciantes; tudo gente de cepa honrada mas agreste. O que não quer dizer que a cepa seja de não dar flor. tenho um primo que guarda ovelhas e as beija e as trata como a suas irmãs; um São Francisco em bruto. Pois está-se mesmo a ver que é tanto à ascendência como à convivência que eu devo a condição de não saber falar a doutores."


       A sua necessidade de comunicação é evidente; E explica:


"Eis porque a cidade às vezes me faz impressão: na aldeia a gente dá os bons dias a quem passa; a gente sabe quem está doente e empresta um termómetro e empresta o que for preciso, todos falamos com todos, todos nos importamos com todos, as caras são todas conhecidas."

       E lamenta:


"Já na cidade não é assim. . ."


       A sua curta vida de 27 anos apenas, vivê-la-ia dando-se aos outros como Poeta, como Pedagogo - como HOMEM.



DADOS BIOGRÁFICOS

1924 - Sebastião Artur Cardoso da Cunha nasce a 10 de Abril em Vila Nogueira de

  Azeitão.
- Faz a Instrução Primária na Escola da sua terra.

- Frequenta o Liceu de Setúbal até ao 4.° ano, altura em que adoece; o resto

  do curso termina-o como aluno voluntário.

1946 - Obtém a Licenciatura em Filologia Românica pela Faculdade de Letras
  de Lisboa.

1947
1948 - Professor Provisório em Setúbal na Escola Técnica.
1948
1949 - Faz o Estágio para Professor Efectivo na Escola Veiga Beirão em Lisboa.
1950
1951 - A 4 de Maio casa com Joana Luísa, sua amiga de infância, no Convento da
  Arrábida (foi o primeiro casamento ali realizado).
1952 - Lecciona na Escola Técnica em Estremoz.
1952 - A 7 de Fevereiro morre, vitimado por uma tuberculose renal de que sofria
  desde adolescente.


Lápide na casa onde morou em Vila Nogueira de Azeitão


Faltava-lhe a morte

Para ser completo

A taça estava cheia

Faltava-lhe a pétala

da rosa

Para transbordar

*

SEBASTIÃO DA GAMA

10 - 4 - 1924

7 - 2 - 1952

HOMENAGEM DOS SEUS CONTERRÂNEOS

1953






BIBLIOGRAFIA

Obras do Poeta:


1947 - Cabo da Boa Esparança"

1945 - "Serra Mãe" - Prefácio de Luis Filipe Lindley Cintra.

1946 - "Loas a N. S. da Arrábida"

1951 - ''Campo Aberto"

1953 - "Pelo Sonho é que vamos"

1953 - "Lugar de Bocage na Poesia Portuguesa" a)

1958 - "Diário" - Prefácio de Hernani Cidade.

1959 - "O Segredo é Amar" - Prefácio de Matilde Rosa Araújo

1967 - "Itinerário Paralelo" - Prefácio de David Mourão Ferreira


Outra Bibliografia:


1961 - "Sebastido da Gama: poesia e vida" - Maria de Lourdes Belchior.

1979 - "Vinte Poetas Contemporâneos" - David Mourão Ferreira.

        - "Pedagogia de Sebastião da Gama"- Jesus Herrera.

        - "Imprensa Local"


a) Conferência proferida em 15 de Setembro de 1950, em Setúbal e publicada na Revista da Faculdade de Letras em 1953.


Nota: Todas estas obras existem na Biblioteca Municipal de Setúbal.


Biblioteca Municipal de Setúbal

Juntas de Freguesia de S. Lourenço e S. Simão - Azeitão

Folheto da Biblioteca Municipal de Setúbal


(Folheto e foto cedidos pelo Professor Mata Fernandes)


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